Diagnóstico da Escoliose: Como Identificar e Evitar a Progressão

A escoliose é uma condição musculoesquelética que pode passar despercebida até atingir estágios avançados. O diagnóstico precoce é a chave para evitar progressões graves que podem culminar em cirurgia. Infelizmente, no Brasil, milhares de adolescentes ainda recebem o diagnóstico tardiamente — muitas vezes, por falta de rastreamento e orientação baseada em evidências.

A Escoliose no Brasil: o que os estudos mostram?

Em um estudo pioneiro realizado por nossa equipe em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), foi realizada uma das maiores ações de rastreamento escolar do Hemisfério Sul. Avaliamos adolescentes em escolas públicas do interior de São Paulo, utilizando o escoliômetro — instrumento recomendado por diretrizes internacionais, como as da SOSORT (Society on Scoliosis Orthopaedic and Rehabilitation Treatment).

Os resultados indicaram:

● Prevalência de 1,5% da escoliose na população avaliada;

● 4 meninas para cada menino com escoliose;

● Média de curvaturas em torno de 20 graus ao diagnóstico;

● Diagnósticos feitos principalmente no início da puberdade.

Esses dados estão em total conformidade com estudos internacionais que apontam que a escoliose idiopática do adolescente (EIA) é mais comum entre os 10 e 16 anos, principalmente em meninas.

🔬 Referência internacional: Negrini et al. (2018), 2016 SOSORT Guidelines. Scoliosis and Spinal Disorders.

Como a escoliose deve ser diagnosticada?

De acordo com a SOSORT e SRS (Scoliosis Research Society), o protocolo recomendado para triagem e diagnóstico da escoliose inclui:

1. Avaliação visual: observação da simetria dos ombros, escápulas e quadris;

2. Teste de Adams (teste do minuto): o paciente se inclina para frente; se houver um lado mais alto das costas (gibosidade), há suspeita de rotação vertebral;

3. Medição com escoliômetro: ângulos acima de 5–7 graus já exigem investigação radiográfica;

4. Radiografia panorâmica da coluna: confirma a presença e o grau da curva (medida pelo ângulo de Cobb);

5. Avaliação do risco de progressão: considera idade, sexo, menarca (no caso de meninas) e estágio de crescimento (Risser, Sanders).

Por que o diagnóstico precoce é tão importante?

Infelizmente, muitos casos graves são consequência de atrasos no diagnóstico ou falta de acompanhamento adequado. Um caso citado no vídeo exemplifica bem essa realidade:

Uma adolescente foi diagnosticada tardiamente com 16° de curva em um exame de raio-X de tórax. Sem acompanhamento e orientação adequada, sua curva evoluiu para mais de 60°, tornando-se caso cirúrgico.

Casos assim não são raros — e o pior: não por negligência das famílias, mas por falhas nos sistemas de rastreamento e falta de atualização de muitos profissionais. Fisioterapeutas e médicos precisam estar atentos e seguir protocolos baseados em ciência.

O que você pode fazer como profissional da saúde?

✅ Se você é fisioterapeuta ou ortopedista:

● Aprenda a usar o escoliômetro;

● Acompanhe crianças e adolescentes durante os estirões de crescimento;

● Mantenha contato com escolas e promova ações de triagem;

● Atualize-se com as diretrizes da SOSORT;

● Evite abordagens passivas ou “esperar para ver” — o risco de progressão é real!

✅ Se você é pai, mãe ou responsável:

● Observe ombros e quadris assimétricos em seu filho(a);

● Realize o teste de flexão para frente (teste de Adams);

● Busque avaliação especializada ao menor sinal de assimetria.

Conclusão: diagnosticar cedo é evitar cirurgias

Hoje, estima-se que mais de 3 milhões de adolescentes no Brasil convivam com escoliose idiopática, muitos sem diagnóstico ou tratamento adequado. A atuação de fisioterapeutas especializados é essencial para mudar essa realidade.

A detecção precoce salva colunas. E, muitas vezes, salva sonhos.

Referências Bibliográficas

1. Negrini S, Donzelli S, Aulisa AG, et al. 2016 SOSORT Guidelines: Orthopaedic and Rehabilitation Treatment of Idiopathic Scoliosis during Growth. Scoliosis Spinal Disord. 2018;13:3.

2. Weinstein SL, Dolan LA, Cheng JC, Danielsson A, Morcuende JA. Adolescent idiopathic scoliosis. Lancet. 2008 May 3;371(9623):1527-37.

3. Bunnell WP. Selective screening for scoliosis. Clin Orthop Relat Res. 2005;434:40-45.

4. Scoliosis Research Society. SRS/AAOS Position Statement: Screening for Idiopathic Scoliosis in Adolescents.

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